
As Melhores Coisas da Vida
Um olhar especial.
Receber cartas.
Conduzir numa estrada bonita.
Ouvir a sua música preferida no rádio.
Um banho de espuma.
Uma boa conversa.
Praia.
Encontrar uma nota de € 500,00 no bolso do casaco que não usava desde o ano passado.
Rir de si própria.
Ligações à meia noite que nunca terminam.
Rir sem absolutamente razão nenhuma.
Ter alguém para lhe dizerque você é muito bonita.
Os amigos
Ouvir acidentalmente alguémfalar bem de si.
Acordar e perceber que ainda temalgumas horas para dormir.
Fazer novos amigos.
Conversar à noite com um amigo especialque não a deixa dormir.
Alguém brincar com o seu cabelo.
Bons sonhos.
Chocolate quente.
Viajar.
Dançar
Beijar na boca (Hummmm!).
Ir a um bom espectáculo.
Ter arrepios ao ver "aquela" pessoa.
Ganhar um jogo difícil.
Segurar a mão de um amigo.
Encontrar com um velho amigoe descobrir que tem coisas que nunca mudam.
Descobrir que o amor é incondicional.
Abraçar as pessoas que ama.
Ver a expressão de alguém quando lhe dá um presente que queria muito.
Ver o nascer do sol.
Aniversário
No TEMPO em
que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
o que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...A que distância!...(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhaslágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!Não penses!
Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Fernando Pessoa
